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João Doria e o espírito do tempo



Há um político a prestar atenção no Brasil de hoje – e o nome dele é João Doria Jr., prefeito de São Paulo. Esqueça, por um momento, a roupa de gari (foto), a velocidade das marginas, o combate aos pichadores, as privatizações, os cortes de carros oficiais e os pedidos de doação. Deixe também de lado o oportunismo político e o talento marqueteiro para responder a repórteres despreparados ou a provocações, como o novo comercial da Amazon (uma crítica ao “cinza” que tomou conta de São Paulo). Tudo isso é relevante, mas uma decisão tomada por Doria esta semana é ainda mais. Depois de, dias atrás, proclamar candidato à Presidência Geraldo Alckmin, seu padrinho político e mentor de sua candidatura à Prefeitura, Doria simplesmente proibiu seus assessores de discutir a possibilidade de que ele se candidate em 2018. Em política, não é preciso dizer mais nada. O significado da decisão é evidente: ele quer e estuda ser candidato, por isso precisa ao máximo evitar especulações para operar em paz nos bastidores. Ao governo do estado? À Presidência? Ainda não sabemos. Mas o sucesso de público da gestão que completa três meses esta semana na maior cidade do país – aliado a tudo o que está no segundo parágrafo deste texto – o credencia a qualquer coisa. A viabilidade da candidatura Doria não depende nem mesmo do partido a que ele está filiado, o PSDB. Como outsider, alguém que é rico e veio de fora da política, Doria pode abrir mão da máquina peessedebista se tiver outra à disposição. Pode também se aliar a descontentes no próprio PSDB – Serra, Aécio e até Fernando Henrique – para driblar seu padrinho Alckmin por cima. Em política, nada é impossível. O que defininirá o potencial de Doria é outro fator. Mais que ninguém, ele captou o sentimento que do eleitor paulistano nas últimas eleições – e varreu seus adversários, em especial o ex-prefeito petista Fernando Haddad, com uma vitória arrasadora no primeiro turno. Em que consiste, para empregar a célebre expressão alemã, esse Zeitgeist, ou "espírito do tempo", que Doria soube entender tão bem? A resposta está – acredite! –, numa pesquisa divulgada há alguns dias pela Fundação Perseu Abramo, ligada ao PT. Como escrevi depois da eleição, Haddad governou para a Vila Madalena, não para Parelheiros. (Para quem não é de São Paulo, o primeiro é um bairro de classe alta, onde os habitantes se definem como de “classe média”; o segundo, um bairro pobre.) Encheu a cidade de ciclovias inúteis e faixas exclusivas de ônibus, incapazes de melhorar o transporte. Estava mais interessado em questões de gênero e no direito de transexuais frequentarem banheiros femininos que em saúde ou educação. O resultado foi um massacre nas urnas da periferia paulistana. Os pesquisadores da Fundação Perseu Abramo resolveram então entender por que, afinal, as regiões mais pobres não votam mais no PT. Fizeram 63 entrevistas em profundidade, com uma amostra heterogênea da população dos bairros periféricos – tão idolatrados quanto desconhecidos por quem defende Haddad e as ciclovias nos botequins da Vila Madá, diante de uma cerveja artesanal. Eis algumas conclusões sobre as percepções da população: 1) Não há luta de classes entre ricos e pobres – ao contrário, há empatia com empresários e patrões; 2) O inimigo é o Estado, ineficaz e incompetente. O mercado é mais confiável; 3) Há um “liberalismo popular”, com demanda de menos Estado – “se pago impostos, tenho direito de cobrar”; 4) Há identificação não com quem pertence ao mesmo grupo, mas com o grupo a que se almeja chegar; 5) A ascensão social está associada à coragem, ousadia, disciplina, mas acima de tudo ao mérito; 6) Estudar é fundamental para subir na vida; 7) O empreendedorismo é a aspiração de quem quer vencer pelas próprias forças; 8) Há um desejo por bens de consumo e, entre os jovens, marcas de status; 9) Há mais individualismo que solidariedade; 10) Religião e família são o centro da vida; 11) A igreja é vista como instituição de apoio para evitar o caminho do desemprego e do crime; 12) A vinculação entre política e religião é mal vista; 13) A política é suja e gera desconforto, mas influencia a vida – dos serviços públicos aos impostos altos; 14) A corrupção é o principal problema do país, de onde derivam os demais; 15) Não há lógica no uso de termos como “esquerda” ou “direita”, nem polarização – todos os partidos são iguais. Ao final, o estudo resume suas conclusões na seguinte frase: “Este cenário de descrédito da política, compreensão do Estado como máquina ineficaz somada à valorização da lógica de mercado e à ideologia do mérito abrem espaços para candidatos e projetos como o do João Doria ‘um não-político, gestor trabalhador que ascendeu e, por isso, não vai roubar’.” Foi esse o espírito do tempo que Doria captou como ninguém. É um sentimento presente na vida de qualquer um que viva na São Paulo real – não na cidade de fantasia da mente dos acadêmicos. Há apenas duas dúvidas no caminho de Doria.

A primeira é como será o governo na prática. Buracos de rua e sinais de trânsito apagados, assim como as filas nos hospitais e a qualidade das escolas públicas, continuam a ser bem mais importantes que as pichações, por mais que imponham um desafio maior ao marketing espontâneo do prefeito. Três meses ainda é pouco para avaliar o resultado do governo.

A segunda dúvida é se – ou em que medida – o sentimento paulistano também está presente no resto do Brasil, em especial nas regiões onde o Estado ainda é visto como salvador da pátria e como solução, em vez de problema e inimigo. Se o Zeitgeist estiver disseminado em nível comparável, infere-se do estudo encomendado por militantes do próprio PT, então Doria será imbatível em 2018, qualquer que seja o cargo a que se candidate.