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Emílio Odebrecht diz que pagou sobrinho de Lula sem prestação de serviço


Empresário disse que contratou empresa de Taiguara Rodrigues a pedido do ex-presidente; petista alega que nunca tratou das relações comerciais do sobrinho.

O empresário Emílio Odebrecht contou, em depoimento de delação premiada, que a Odebrecht contratou, a pedido do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a empresa de um sobrinho do petista para prestar serviços para a construtora em Angola. Em determinado momento, disse o executivo, a Odebrecht chegou a pagar cerca de US$ 150 mil à firma de Taiguara Rodrigues mesmo sem ter realizado qualquer serviço.

O pedido teria chegado a Emílio por meio de Alexandrino Alencar, funcionário da Odebrecht mais próximo de Lula e que costumava viajar com ele para a África. Procurada pelo G1, a assessoria do ex-presidente lembrou que o caso já é investigado num processo penal aberto em Brasília e que ficou comprovado que os serviços de Taiguara, na área de energia, foram efetivamente prestados (leia mais abaixo).

No depoimento aos procuradores, Emílio não dá detalhes sobre a contratação, como data, valores e atividades.

“Numa viagem dessa para o exterior, Lula falou com o Alexandrino: ‘Olha, eu tenho um sobrinho, que tem uma sociedade em Portugal, com um sócio português, e, se vocês puderem dar uma oportunidade de trabalho…”, contou Emílio.

Taiguara é filho do irmão da primeira mulher de Lula e, segundo Emílio, trabalhou para a Odebrecht em Angola durante um ano e meio. “Se não foi colocado pra fora, é porque ele teve algum serviço que foi útil para o pessoal no empreendimento. É um contrato como qualquer outra empresa”, relatou.

Posteriormente, porém, com a redução do preço do petróleo, a demanda de serviços diminuiu. Nessa época, ainda segundo Emílio, Taiguara teria enviado carta a Lula pedindo que a Odebrecht aumentasse seu serviço no país africano. O empresário disse que o pedido foi atendido, com um pagamento para “serviços futuros”.

“Ele estava insatisfeito porque estava com pouco serviço e de como o Lula poderia nos pedir para que aumentasse serviço [...] Alexandrino me topou dizendo que o problema é que não tinha mais serviço mesmo lá em função da redução do preço do petróleo, em Angola, e que ele tinha uma forma de minimizar essa situação que ele estava [...] E aí houve negociação de algum valor que ficasse por conta de serviços futuros a ele, prestado para minimizar o momento da crise financeira”, afirmou Emílio aos procuradores.

“Se não me engano foi algo acima de uns 300 mil reais. Cerca de 150 a 200 mil dólares, é bem possível que seja por aí”, completou em seguida.

Emílio diz que Taiguara não estava saindo por falta de competência, preço, produtividade ou qualidade. “Ele estava saindo porque não tinha mais serviço. tinha diminuído sensivelmente aquilo que ele fazia”.


Processo em Brasília

O caso de Taiguara é analisado numa ação penal aberta em outubro do ano passado pela Justiça Federal em Brasília. Junto com outras nove pessoas, o ex-presidente e seu sobrinho respondem como réus por suposta formação de organização criminosa, lavagem de dinheiro, corrupção e tráfico de influência.

A acusação aponta atuação do ex-presidente junto ao BNDES para favorecer a Odebrecht em empréstimos para obras de engenharia realizadas em Angola, entre 2008 e 2015. Em troca, a empreiteira teria desembolsado R$ 30 milhões para os envolvidos.

Apesar da ação aberta em Brasília, o ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal, encaminhou o relato de Emílio Odebrecht para a Justiça Federal no Paraná, onde a Lava Jato é conduzida pelo juiz Sérgio Moro.

Defesa de Lula

No processo, a defesa de Lula diz que os serviços de Taiguara foram efetivamente prestados. Em depoimento, o ex-presidente disse que seu sobrinho não chegou a conversar com ele sobre a empresa e que, “em nenhum momento, nem quando era presidente ou depois”, tratou das relações comerciais de Taiguara.

Sobre as declarações de Emílio, a assessoria de Lula afirmou que elas não são constituem provas e que o caso já é objeto da ação em Brasília. Assessores lembram que outras suspeitas lançadas sobre o ex-presidente nas delações de Nestor Cerveró, Pedro Barusco, Paulo Roberto Costa e Delcídio do Amaral não se confirmaram nos processos judiciais em curso.